Meu filho não fica doente

Brincadeirinha gente. Fica sim, é só para atiçar mesmo, para que vocês leiam meu post.

Há muito tempo gostaria de abordar o tema aqui no blog, pois desde que meu filho começou na pedagogia Waldorf sinto que ele fica MENOS doente. Minha percepção materna também fez uma comparação empírica com crianças de outras escolas e parece, veja bem, PARECE, que as crianças de escola Waldorf ficam menos doentes que crianças de escolas tradicionais. Fui tentar desmistificar o meu achômetro, afinal, era muita pretensão, né? Conversei um pouquinho com algumas mães e pais de diferentes escolas, perfis e pedagogias e também com a PHD em Saúde Pública pela USP e nutricionista Dra. Elaine Azevedo.

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Esse é um assunto polêmico e vou compartilhar a MINHA experiência dos dois últimos anos de alimentação com base antroposófica dentro da escola Waldorf, no Brasil. Aqui em casa não seguimos muito a dieta antroposófica, tem bisnaguinha de vez em quando, suco, chocolate, açúcar e etc. mas com moderação. Antes de entrar “nessa” escola eu sabia vagamente sobre Antroposofia e NADA sobre a parte de alimentação que a filosofia prega. A grata surpresa de rumar ao desconhecido tem dessas coisas. Em todos esses anos acredito que 3 fatores colaboram bastante para toda essa saúde: a alimentação da escola, o pé no chão e a mão na árvore. Para facilitar o entendimento dos pequenos sobre o calendário, ainda no maternal, os dias da semana eram substituídos pelos dias da comida. Segunda: dia do arroz integral; Terça: cevada; Quarta: quirera; Quinta: pão integral (que as crianças amassam); Sexta: torta de aveia.  Além das frutas que todo dia os pequenos devem levar de casa para compartilhar. Resumindo: os grãos e frutas parecem ter um papel muito importante na dieta.

A minha conversa com a Dra. Elaine revelou que, além da alimentação, o estilo de vida que a escola imprime é o fator fundamental de Saúde e prevenção de doenças. Ela comenta que as famílias “Waldorf” geralmente respeitam o ritmo que o corpo de uma criança precisa, com questões como o sono em horário adequado (É cedo, viu gente, tipo 19h30 tem que estar tudo indo para cama! Eu não consigo, o meu vai 20h30); a não-utilização e o controle no uso dos eletrônicos; não usam muito medicação; há um entendimento de que a febre é, em muitos casos, um fenômeno positivo. Segundo Elaine nos processos naturais de “cura” o sistema imunológico torna-se ativo e é fortalecido. A escola também não intelectualiza precocemente os alunos (na pedagogia o processo de ler e escrever só começa no ano que o aluno faz 7).

*Uma pesquisa realizada em Estocolmo entre 2004 e 2011 teve por objetivo entender mais sobre o porque as pessoas estão ficando cada vez mais propensas a alergias de comidas do que alérgicas ou sensíveis a pollen e animais. Estudou-se, com amostras de sangue e questionários, 552 famílias que foram divididas em 3 grupos: os que seguiam totalmente os preceitos de Steiner, os moderados e os não adeptos. Estudos anteriores já haviam mostrado que com frequência famílias com estilo de vida antroposófico tinham baixa prevalência ou sensibilidade a doenças alérgicas comparado com outras crianças. Nesse estudo, as descobertas reafirmaram que crianças de famílias antroposóficas têm baixa incidência de alergias a comida até 1 ano de idade. Indicador de que a filosofia tem mesmo um efeito na sensibilidade alérgica durante o primeiro ano dos pequenos.

*Já essa outra pesquisa, também de Estocolmo, na Suécia, mostrou se crianças de famílias que seguiam a antroposofia tinham risco reduzido para 4 tipos específicos de doenças alérgicas. Eles categorizaram 157 crianças de acordo com o estilo de vida antroposófico e não antroposófico e os resultados não mostraram diferenças significativas entre os dois grupos. Porém, nas conclusões eles revelam que o “efeito colateral” no que diz respeito ao estilo de vida não pode ser descartado.

Os adeptos da filosofia, de forma integral (vida spiritual, educação, saúde, agricultura e dieta), dizem que a nutrição antroposófica proporciona um estado de bem estar geral, nessa dieta as forças dos alimentos naturais, produzidos conforme a lei da natureza, harmonizam para um ser humano sadio em todos os sentidos. Um tanto exótico mas totalmente alinhado com políticas públicas de alimentação e de segurança alimentar e nutricional que temos no Brasil e países europeus.

Também perguntei se o consumo de alimentos orgânicos fazia diferença nessa saúde toda da criançada e ela revelou que a longo prazo, muito provavelmente, mas o que realmente faz a DIFERENÇA é o estilo de vida dos pais. Ela finaliza dizendo que o TEMPO é o melhor investimento que podemos oferecer aos nossos filhos no primeiro setênio. A Dra revela que hoje em dia existe a síndrome da criança da creche, em que os pequenos ficam emocionalmente vulneráveis e ficam doentes por conta disso, no fundo estão desnutridos de “família” e não tem maturidade para lidar com as situações. Depois refleti e para quem vive tentando equilibrar a balança e levando em conta que viveremos, pelo menos, até os 85/90 anos de idade o que são 7 anos.

Obrigada a Dra. Elaine pelos esclarecimento e indicação de fontes para esse texto.

*Tradução livre e interpretação minhas dos estudos.

Dra. Elaine Azevedo é Nutricionista, com aperfeiçoamento em Medicina Antroposófica, mestre em Agroecossistemas e doutora em Sociologia Ambiental. Pós-Doutora em  Saúde Pública  e autora do livro Alimentos Orgânicos, da Editora SENAC.

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Fontes:
  • Stenius F, et al. Lifesytle factors and sensitization in children – the ALADDIN birth cohort.Allergy. 2011.
  • Hesla HM, et al Herpervirus iInfections and allergic sensitization in children of families with anthroposophic and non-anthroposophic lifestyle – the ALADDIN birth cohort. Pediatr Allergy Immunol. 2013.
  • Fagerstedt , H   et al.  Anthroposophic lifestyle is associated with a lower incidence of food allergen sensitization in early childhood. Clin Immunol. 2016 Apr;137(4):1253-1256.
  • Alfvén  T et al. Allergic  diseases and atopic sensitization in children related to farming and anthroposophic lifestyle–the PARSIFAL study.Allergy. 2006 Apr;61(4):414-21.

 

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